Loucuras da vida

Loucuras da vida

Acordou cedo e logo saiu correndo pelos campos, ouvindo os sons da manhã. Os pássaros multicores, voando, cantarolavam melodias como se aquele fosse o último dia de suas vidas. Ao passar ao lado de um rio pôde contemplar a água límpida nas fortes correntesas entre pedras e caminhos tortuosos. Os peixes lhe olharam nos olhos e suspiraram ante tanta beleza natural. Uma borboleta veio ao seu encontro passando bem perto de seus olhos arregalados pela poeira levantada pelas patas selvagens dos cavalos que saltitavam alegres e faceiros. Suas grandes e pesadas patas dianteiras batiam no chão como se fosse quebra-la em pedaços. Tudo parecia beleza e felicidade. As estrelas brilhavam como nunca, com suas cores maravilhosas, piscando como numa árvore de natal. Esfregou os olhos para enxugar as lágrimas de suor que escorriam de sua testa. Grandes gotas de água que caiam do céu escurecido pelas nuvens cinzentas de verão.

Não havia o que fazer. Ele estava lá. E não sairia jamais pois sentia que sua hora estava chegando. E devagarinho sussurou aos ouvidos atentos de seu fiel alazão que com ele sempre esteve. Os faróis lhe cegaram a visão. A velocidade com que se locomovia era de se assustar. Mesmo ele, que era acostumado a se alimentar desses animais lerdos e varagosos. Tudo por causa de sua adorável mãe, que muito lhe desejava o bem. São exatamente essas coisas que ele mais gostava nas suas aulas de violino. O silêncio antes de uma música. Cada nota musical é uma história a ser contada pelas flores rosadas daquele jardim saudável e sorridente. Os acordes criavam ventos fortes que balançavam as casas ao redor e as roupas dos varais dançavam como dançarinas de balé com sua doçura e leveza.

Não, ele não podia continuar. Suas vestes estavam a derreter. Seus sapatos desamarrados mostravam sua exata situação da estrada pavimentada de pedras quebradas ao meio. Cada passo que dava lhe custava muito suor e sangue. Muito esforço era de se manter em pé, por isso ele se sentou um pouco para contemplar varagosamente o andar da tartaruga. Parado ali, esperando por uma carona, de longe lhe avistou um ônibus. Não parecia ser muito novo, mas seria sua solução. Não podia mais esperar uma estrela cadente lhe levar para longe deste lugar que até agora só lhe tirava as esperanças de voar. Suas asas estavam machucadas por causa de uma pedrada malvada de um garoto com estilingue. O ônibus foi se aproximando devagar e até parecia que nunca ia chegar. Até que enfim chegou perto e ele entrou. Havia muitos lugares vagos e pode então deitar em duas poltronas confortáveis e descansar.

Depois de algumas horas de viagem resolveu olhar pela janela e observar a paisagem já coberta pela neve, pois o inverno estavam muito intenso e castigava as árvores e todos os animais se escondiam para salvar suas vidas. Com um livro nas mãos e sua bolsa de viagem resolveu chegar mais perto de uma das árvores brancas pela neve, pois lhe chamou a atenção uma pomba que girava sem parar ao pé da frondosa árvore de galhos secos. Ao se aproximar do pássaro sentiu uma dor intensa na perna, pois foi atingido em cheio por uma fruta madura que caiu do céu. Para ele que estava sem comer há algumas horas era uma boa notícia. O ônibus continuava sem parar e ele ali olhando pela janela embassada. Tudo passava rápido, e mais rápido ainda ele pensava, e ao pensar sobre muitas coisa que lhe passavam como um filme de cinema mudo do estilo longa metragem. Só pra não ficar de fora de toda aquela festa. Todos dançavam ao seu redor como se ele fosse o aniversariante naquele dia. Todas aquelas pessoas que demonstravam felicidade não passavam de fantoches nas mão dos grandes homens, políticos daquela cidade. Uma grande cidade que crescia mais e mais sem planejamentos e sem a vontade do povo que vivia nas entranhas das montanhas. Por causa dessas montanhas foi que seus pais se mudaram para aquele lugar décadas atrás.

Às vezes o ônibus balançava ao passar por algum buraco naquela estrada sem fim. Entre cochilos e sonecas ele sonhava com um dia estar lá no seu destino ao longe. De repente o ônibus parou. Ninguém se movera há horas dentro daquele veículo grande e confortável. As pessoas haviam desaparecido. As poltronas estavam vazias. Ninguém estava lá para lhe receber o bilhete da passagem. Perto dali um homem assentado em uma cadeira vendia doces e salgados para os viajantes cansados. Se aproximou dele e lhe entregou suas moedas. O homem assustado com aquela atitude saiu a galopes sendo seguido por seu pequeno cãozinho. As outras pessoas que estavam por ali nem perceberam o ocorrido. E agora? Como encontrar o motorista de camisa vermelha que lhe havia prometido que em dois dias chegariam às montanhas mais altas do mundo? Um forte e alto barulho lhe chamou a atenção. Era uma árvore sendo cortada por um lenhador usando uma máquina barulhenta. Outros animais também fugiam ao seu redor e ele ali parado sem acreditar que realmente tudo estava acontecendo. Era o fim? Todos os seus amigos morreriam naquele dia? Seriam lembrados como heróis que conseguiram fugir de tão foraz e terrivel destruidor.

Entre pulos e esbarrões eles se afastaram do perigo. Para trás, cada vez mais longe ele ouvia os estrondos das explosões dos carros de fogo da destruição. Enfim pareciam fora de perigo. Um esquilo, animalzinho que muito corria e era hábil nessa tarefa de velocidade demonstrava alegria de alguém que acabara de salvar a sua vida. Era como uma comemoração. Estariam felizes? Às vezes corriam, saltavam, sorriam, brincavam, mas uma coisa sempre lhe chamou a atençao. Elas pareciam não ser felizes de verdade. O horário do recreio era o momento de contemplação para ele. Enquanto as crianças brincavam com as frutas verdes do campo, ele as observava como se estudasse cada movimento, procurando uma relação entre seus comportamentos e as notas que elas tiravam em suas provas. O movimento ritmado dos passos eram uma ciência a estudar. Cada vez que o farol ficava verde elas se locomoviam, todas ao mesmo tempo. Não precisavam nem olhar umas para as outras. Era como se todas tivessem o mesmo sentimento, no mesmo momento e na mesma intensidade. Tudo parecia normal naquela manhã até que…

“Silêncio!” Gritou alguém. “Eles estão chegando”. Estão trazendo as mercadorias para serem levadas até as bancas onde serão vendidas pelos comerciantes daquela feira. Pôs sua mochila num canto e começou a ajudar a carregar os sacos de verduras e frutas que estavam ali sendo descidas do navio pelos marinheiros. Cada saco de fruta ou de verdura representava uma moeda no seu cofrinho. Ele havia trabalhado intensamente todo aquele verão para poder agora desfrutar daquela viagem de navio. Um forte apito se ouviu e todos os passageiros correram para a escada que dava acesso ao grande navio. Todos afoitos com suas passagens nas mãos e ele ali também esperando sua vez. O navio era muito grande e tinha muitas janelas redondas. Dezenas de janelas de cada lado. Havia muitos ratos correndo por todos os lados. Seria isso normal? Vários compartimentos separavam cada parte e em vários lugares ele havia passado. Um banco com três crianças brincando de cartas seria um bom lugar para ficar naquela noite. Seria uma noite demorada pois ele não poderia dormir. Do seu lado um cãozinho deitado dormindo tranquilamente o sono dos deuses. Ele se sentia seguro pois estava sendo protegido pelos senhores ricos daquele lugar.

Tirou sua lanterna e tentava ver quem se aproximava. As águas geladas lhe doíam as pernas que não podiam parar de se movimentar. As ondas batiam em seu rosto e às vezes lhe causavam pavor. Várias pessoas estavam naquele pequeno barco salva-vidas. Eles também tinham lanternas como se fossem vagalumes que iluminavam a noite. Sem perceber todos estavam ali perto dele e um pão com queijo lhe foi oferecido como prêmio pelo feito heróico. Ninguém havia entendido realmente suas intenções, mas ele sabia, com muita lucidês que o vilão havia fugido após suas investidas de bravura. Tornara-se o herói. O maior. O melhor. Diante de todos se levantou e cantou a música dos vitoriosos. Suas roupas molhadas pelas águas do mar eram a testemunha de que ele havia estado lá. Porém, assim como a roupa seca logo-logo, também seus súditos que o veneravam, o deixariam ali para morrer. Morrer ali no meio daquele jardim não seria tão mal assim. O perfume das flores lhe acariciavam as narinas e ele podia sentir a alegria que emanava daquelas pequininas borboletas que voavam no ritmo das músicas dos músicos.

Olhou para um lado e para o outro. Na sua frente, a montanha. De um lado uma parede de pedras intransponível. Do outro lado um precipício tão profundo que seus olhos não conseguiam alcançar. Pegou uma pedra e jogou. Esperava ouvir o barulho dela ao cair no solo, mas nada ouviu. Era tão profundo o precipício que a pedra desapareceu. Para frente estava seu destino porque voltar era impossível. Seus olhos eram poderosos e podia ver detalhes minúsculos à longa distância. Tinha a capacidade de sentir odores de animais a dezenas de metros. Podia saltar e voar entre aquelas montanhas áridas e despidas pelas queimadas dos lenhadores. Saltou como um torpedo lançado por um avião. Ninguém podeia superá-lo. Ninguém podia alcançá-lo. Ele era o rei do espaço em que por alguns minutos era todo seu. Lá de cima podia ver as os telhados das casas. Via os jardins. Via as crianças uniformizadas brincando de estudar. Via os animais sendo pastoriados pelos seus pastores. Desceu para mais perto para contemplar seus vizinhos. Eles estavam ali e conversavam algum assunto interessante. O que será que eles conversavam com tanta atenção? Me aproximei e perguntei do que se tratava mas ele me ignoraram. Cada um buscou sua cadeira e não mais havia o bate-papo descontraído.

Voltei para o meu lugar. Eu sabia que eles nunca me entenderiam.

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