O milagre das lâmpadas

Todos estavam parados. Olhando para a mesma direção. Compenentrados. Nem todos. Uma mulher de meia-idade, cabelos castanhos, saia justa, uma blusa com flores na frente, de óculos. Mantia a seriedade no rosto, porém, demonstrava estar contente com a vida. Segurando sua pasta de executiva dava a impressão de ser uma mulher moderna, de sucesso no mundo dos negócios. Um menino com um cachorrinho amarrado em uma curta corda, desassossegado com o bicho que não se contentava em estar parado ali. Um senhor de cabelos grisalhos, já encurvado pela idade usando uma camisa de modelo simples com botões brancos.

Todos parados, olhos fixos na mesma direção, esperando a mesma coisa. Havia muitas outras pessoas ali paradas. Um rapaz com uma caixa nas costas desejava muito estar em uma sala de aula preparando um futuro melhor, mas ele estava ali, parado, esperando. Dali iria para a rodoviária trabalhar de engraxar os sapatos de seus fiéis clientes. Uma moça, nova, com grandes tatuagens nos braços, mascando chicletes, olhava de um lado para o outro, se distraindo a perceber as esquisitisses das pessoas que a rodeavam. Usava uma saia curta xadrez, aparentando estar constantemente sem noção do que faria logo em seguinda.

Ele estava ali entre essas pessoas. Cada um com sua vida em particular. Cada um com suas espectativas. Cada um com seus sonhos desiludidos. Era tão grande a tensão que eles não se olhavam nos olhos. Mantinham as cabeças erguidas como um exército de soldados prontos esperando o sinal para atacarem seus adversários. As mãos suavam. O momento estava chegando. A aflição tomava conta de todos. O tempo parecia não passar e o suor escorria pelos rostos aflitos. Diante deles um quadro, num lugar alto, com três lâmpadas, uma de cada cor. Duas estavam apagadas e uma estava ligada.

A que estava liga era de cor vermelha. Porque estas pessoas estavam ali paradas? Todas compenentradas. Parecia que estavam como que adorando um deus mágico que lhes daria a liberdade de prosseguir. A liberdade de se desprenderem de suas amarras. De suas correntes que os prendiam naquele lugar. No chão umas faixas coloridas como o corpo de uma zebra. De repente algo estranho aconteceu. Sem que ninguém fizesse nada aparentemente, a luz que estava acessa se apagou e a lãmpada de cor verde se acendeu. Ele olhou para um lado e para outro e não viu ninguém com o dedo em um botão ligando a lâmpada.

Era mesmo um deus mágico, com poderes para ligar e desligar as coisas. Todas aquelas pessoas que estavam ali paradas, presas, como que combinadas, sem se ouvir nenhuma ordem, sem se ouvir nenhum grito. Todas elas respiraram profundamente, como um coro de respirações. Todas lançaram seus pés para a frente ocupando o espaço logo à sua dianteira. Não via nelas medo. Não via timidez naqueles movimentos sincronizados. Não havia competições. Não havia a preocupação de quem chegaria em primeiro lugar. Mas todas elas, mesmo que sem conversarem entre si. Todas elas se moveram na mesma direção e no mesmo momento.

Incrível. Maravilhoso. Uma sincronia invejável. Como uma unidade inseparável. Como pode tantas pessoas tomarem a mesma decisão e no mesmo instante? Com os braços se movendo para frente e para trás para se equilibrarem no movimento, elas foram como que um cardume na correntesa marítima. As mulheres de cabelos longos os balançava de um lado para o outro. Não havia nenhum que desejava o lugar do outro, porque cada um tinha seu próprio espaço. Cada um tinha seu próprio destino. Sua própria existência. E ele ali no meio de todos observando esse estranho fenômeno, esse estranho comportamento social.

Enquanto isso aconteceu outra coisa estranha. Novamente houve o milagre das lâmpadas. A lâmpada verde se apagou repentinamente e a lâmpada amarela se acendeu. O que iria acontecer agora? Desde as mudanças anteriores a multidão se comportou de maneira muito estranha. Como num passe de mágica, as pessoas aceleraram a velocidade de seus movimentos. Havia medo em seus rostos. Havia pavor de que algo terrível pudesse acontecer. Elas se comportavam como que estavam para perder algo de maior valor em suas vidas. Novamente de forma estraordinária, sem nenhum comando esterno.

Todas elas tomaram a mesma decisão, andaram mais rápido para a mesma direção. Nenhuma se desviou, nenhuma saio do caminho de cada uma. E ele ali no meio de todos, tentando entender o que estava acontecendo. E para tornar mais estranho ainda esse ocorrido a lâmpada amarela se apagou. E agora? A lâmpada vermelha voltou a se acender. Foi incrível como que todas aquelas outras pessoas, não as primeiras, pararam diante do quadro de três lâmpadas coloridas. E agora, olhando para elas ele começou a perceber que todas eram diferentes. Ele não podia entender como que elas se encotraram ali, no mesmo horário.

Umas pessoas demonstravam felicidade
, outras, tristeza, outras pressa, outras tranquidade. Mas todas tinham algo em comum. Todas estavam ali paradas. Imóveis. Inertes. Esperando mais um milagre acontecer. O que aconteceria a seguir ele nunca soube, porque impaciente, foi embora. e o milagre continuou a acontecer ininterruptamente. E quem sabe algum dia alguém isso entenderia …

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